É quase impossível não se deixar contagiar pelo brilho e fascínio provocado por uma Copa do Mundo. Diferente de outrora, hoje, através dos avançados meios de comunicação, podemos apreciar tudo sem sair do aconchego de nossas casas.
Em tempos de copa do mundo, é interessante perceber como tudo ganha um brilho novo, um ar contagiante parece envolver todos os brasileiros. Quando o Brasil entra em campo, o País pára. Tornou-se uma espécie de mito cessar atividades durante o jogo do Brasil. Vigora uma espécie de direito ‘constitucional’ de recesso. Evidentemente, uma competição mundial reúne os ‘melhores jogadores’, tornando-se também uma oportunidade para apreciar um bom futebol. Acrescenta-se a isso a necessidade própria do ser humano de viver momentos lúdicos na vida. Por isso, momentos assim, quando vividos de forma responsável, tornam-se propícios para que as pessoas deixem extravasar as energias presas da rotina de trabalho, muitas vezes desgastantes. Muitas pessoas aproveitam os jogos da copa para reunir os familiares, parentes, amigos, funcionários...
Ora, esta é uma atitude possível e real, mas não o mais importante do momento. Um olhar crítico faz aflorar outros interesses mais cruéis e impactantes que estão na “jogada”. O que aparece, em primeiro lugar, é a centralidade absoluta no mercado consumidor. Eventos de grandes proporções despontam como oportunidades importantes para levantar o ânimo do mercado,que passa a ganhar tratamento humano. Quando não é alimentado o suficiente pelo consumismo desenfreado, porém, camuflado, começa a ficar nervoso, fugir de um País para outro, atacar as economias frágeis... O mercado aproveita, como sempre, a ocasião de entretenimento para aumentar suas vendas. Transforma euforia em possibilidade de lucro. Todos buscam encontrar um ‘jeitinho brasileiro’ para vender mais e com isso lucrar.
Mas, a fatia maior do sucesso está por conta dos meios de comunicação que, com equipes bem preparadas e equipamentos moderníssimos, oferecem detalhadamente tudo o que acontece em seus mínimos detalhes para os telespectadores. Você acredita que isso é toda a verdade? ‘Nem tudo o que brilha é ouro’, expressão popular que ajuda a analisar criticamente que na telinha, esteja toda a verdade. Um mesmo fato pode ser visto de formas bem diferentes, dependendo dos interesses em jogo. Não é estranho que, em clima de copa de mundo, temas tais como crise do capitalismo e da economia, guerras, corrupção, desigualdade social, desemprego, privatizações... passam a não ser mais ventiladas pelos meios de comunicação. Parece que toda a realidade foi transformada com um toque de mágica.
Fiquemos atentos, ligados, online... para captar os traços apresentados, projeções seletivas, ideologicamente parciais da realidade, possíveis de serem percebidas a partir de um olhar perspicaz. Por isso, a euforia do povo brasileiro pela ‘pátria amada’ não pode por sua vez levar-nos à amnésia do ‘berço esplendido’. Hoje, dificilmente se pode esperar disposição para morrer pela Pátria, como cantam os hinos ufanistas das independênciasnacionais. A pátria não é mais inspiração para tanto.
Pergunta-se: como o cristão poderia se posicionar diante da euforia da Copa do Mundo? Sugerimos duas atitudes, com base em Jesus: Primeira, assistir todos os noticiários com os olhos bem abertos. Jesus critica os fariseus no Evangelho porque ‘coavam os mosquitos e engoliam camelos’ (Mt 23, 24). Segunda, para ser Cristão, temos que parecer com Jesus. É ser ‘sal da terra’ (Mt 5,13), ‘luz do mundo’ (Mt 5,14), ‘fermento na massa’ (Mt 13,33; Lc 13,20-21). A fé não se vive em ambiente fechado, mas no meio do mundo. Este é o milagre do ser cristão.